24.10.26

F

Eu podia passar um ano argumentando aqui sobre as razões pelas quais eu não elegeria um governo fascista. Mas hoje só quero falar sobre uma coisa.

Em 2023 eu perdi a pessoa mais importante da minha vida, por sequelas da pandemia da COVID-19. Não faz muito tempo isso, mas parece que ninguém se lembra mais.

Naquele momento tínhamos no governo alguém que refutava a ciência, que perseguia pesquisadores, que cortava a verba de universidades, que incentivava tratamentos indevidos e comportamentos de risco, que atrasava a vacina, que celebrava o extermínio de diversas pessoas. O nome disso foi genocídio. Essa palavra que devia ser mais falada num país que viveu tantos.

Milhares de famílias viveram um luto à distância. Feridas que não cicatrizaram. E eu, nunca vou esquecer.  

Se houver uma nova pandemia mundial, não quero estar num país com um governo genocida.

20.10.26

S

Antes eu imagivana uma vida boêmia. Um cair na sarjeta de madrugada, com o corpo exalando a álcool.

Agora é só a tuberculose tardia mesmo. O pós festa, sem a festa. Só a doença. Só o efeito colateral.

Um calo no osso, uma cicatriz na pele, uma rigidez muscular. Uma irreversibilidade. 

 

"Fragile as a leaf in autumn

Just fallin' to the ground

Without a sound..."


11.10.26

5.10.26

Desencanto

Era madrugada e eu li o resultado da eleição,

Tanta coisa acontecendo...

Os alienígenas podiam chegar logo,

Com naves imensas destruindo toda essa pseudo civilização.

Ontem eu olhava as pessoas e sentia medo. Tentava entendê-las e não conseguia.

Isso aconteceu de uma hora para outra ou foi um processo que eu perdi...

Não sei dizer.

Cada dia tudo faz menos sentido.

TR

My phone shows the time and weather in Istanbul.

I guess I’m living in two time zones for some weeks now.

My brain keeps calculating the time in Turkey many times a day.

It also tries to picture you in many places. Places I’ve never been.

Instead of being scared I feel amazed by it.

26.4.26

Vírus

Depois do beijo sentiu algo estranho subindo para o nariz, olhos, ouvidos. Como se tivesse engolido metal pesado. Talvez chumbo. Sentiu os olhos ficarem pretos. Não sabia explicar, nem podia falar nada. Será que ela sabia?

A estranheza piorou no dia seguinte. Silêncio. Taquicardia. Tinha começado a se sentir um zumbi. Agora via tudo em tons de cinza. As cores começaram a desaparecer dia após dia. Não conseguia mais dormir.

Notou as unhas ficando mais grossas, crescendo rapidamente. Teve a mesma impressão sobre os pelos. A pele endurecia. Percebeu mudanças nos dentes. Pequenos filamentos pretos microscópicos cercavam a íris dos seus olhos. O olfato tinha mudado. Agora sentia cheiros distantes com precisão.

Depois começou a ânsia ao comer legumes. Depois ao ver frutas. Até que quase nada parecesse comida. Sentia os músculos fortes e os órgãos fracos.

A roupa tinha virado um incômodo. Sentia muito calor. O silêncio continuava.

Agora a roupa lhe provocava coceira. Passou a dormir no tapete. As mãos se movimentavam involuntariamente. Tinha sonhos de caça e acordava babando.

Agora uivava de dor. Foi até a sua porta. Da janela ela avistou a fera. Só fechou a cortina.

31.3.26

Seria

Estaciono o carro.

Jeremy tocando em modo repeat.

Espasmos cardíacos e garganta seca. Coloco uma bala na boca.

Desligo o carro e os espasmos aceleram. Tiro o cinto

No retrovisor nada.

Olho pro relógio no pulso. Pro relógio do som. Nem deu um minuto. Olho no retrovisor de novo.

A música recomeça. A cabeça vai longe, puxo ela de volta.

Olho pro pulso, pro painel. Olho pra frente. Olho o celular.

Olho pro retrovisor, uma sombra, um contorno.

Você abre a porta. Senta no banco e me olha.

Escancaro um sorriso quando bato no seu. Abraço curto.

Nos meus olhos palavras não ditas.

Você percebe algumas.

Coloco o cinto. Você repete.

Ligo o carro. Ando. Silêncio.

Mãos suadas no volante. O semáforo fecha.

Te olho de canto. Você ri.

Estaciono o carro. Te espero na calçada.

Caminhamos pela rua.

Digo qualquer coisa. Você responde.

Peço para você parar com a mão. Tem carro vindo.

Atravessamos. Entramos no bar.

Mesa para duas.

Você olha o cardápio. Eu chamo o garçom.

Peço vodka e cerveja.

Anestesia. Pergunto algo.  Você disfarça.

Mãos se tocam. Os espasmos voltam.

Olho a lua. Faço uma prece.

O garçom volta. Você diz algo.

Meus dentes derramam da boca.

Outra dose. Outra garrafa.

Revelo um segredo. Você ri.

Ouço tambores. Uma bateria.

Aproximo a cadeira. Gravidade.

Buraco negro.

Beijo tua boca. O tempo para.