26.4.26

Vírus

Depois do beijo sentiu algo estranho subindo para o nariz, olhos, ouvidos. Como se tivesse engolido metal pesado. Talvez chumbo. Sentiu os olhos ficarem pretos. Não sabia explicar, nem podia falar nada. Será que ela sabia?

A estranheza piorou no dia seguinte. Silêncio. Taquicardia. Tinha começado a se sentir um zumbi. Agora via tudo em tons de cinza. As cores começaram a desaparecer dia após dia. Não conseguia mais dormir.

Notou as unhas ficando mais grossas, crescendo rapidamente. Teve a mesma impressão sobre os pelos. A pele endurecia. Percebeu mudanças nos dentes. Pequenos filamentos pretos microscópicos cercavam a íris dos seus olhos. O olfato tinha mudado. Agora sentia cheiros distantes com precisão.

Depois começou a ânsia ao comer legumes. Depois ao ver frutas. Até que quase nada parecesse comida. Sentia os músculos fortes e os órgãos fracos.

A roupa tinha virado um incômodo. Sentia muito calor. O silêncio continuava.

Agora a roupa lhe provocava coceira. Passou a dormir no tapete. As mãos se movimentavam involuntariamente. Tinha sonhos de caça e acordava babando.

Agora uivava de dor. Foi até a sua porta. Da janela ela avistou a fera. Só fechou a cortina.