26.4.26

Vírus

Depois do beijo sentiu algo estranho subindo para o nariz, olhos, ouvidos. Como se tivesse engolido metal pesado. Talvez chumbo. Sentiu os olhos ficarem pretos. Não sabia explicar, nem podia falar nada. Será que ela sabia?

A estranheza piorou no dia seguinte. Silêncio. Taquicardia. Tinha começado a se sentir um zumbi. Agora via tudo em tons de cinza. As cores começaram a desaparecer dia após dia. Não conseguia mais dormir.

Notou as unhas ficando mais grossas, crescendo rapidamente. Teve a mesma impressão sobre os pelos. A pele endurecia. Percebeu mudanças nos dentes. Pequenos filamentos pretos microscópicos cercavam a íris dos seus olhos. O olfato tinha mudado. Agora sentia cheiros distantes com precisão.

Depois começou a ânsia ao comer legumes. Depois ao ver frutas. Até que quase nada parecesse comida. Sentia os músculos fortes e os órgãos fracos.

A roupa tinha virado um incômodo. Sentia muito calor. O silêncio continuava.

Agora a roupa lhe provocava coceira. Passou a dormir no tapete. As mãos se movimentavam involuntariamente. Tinha sonhos de caça e acordava babando.

Agora uivava de dor. Foi até a sua porta. Da janela ela avistou a fera. Só fechou a cortina.

31.3.26

Seria

Estaciono o carro.

Jeremy tocando em modo repeat.

Espasmos cardíacos e garganta seca. Coloco uma bala na boca.

Desligo o carro e os espasmos aceleram. Tiro o cinto

No retrovisor nada.

Olho pro relógio no pulso. Pro relógio do som. Nem deu um minuto. Olho no retrovisor de novo.

A música recomeça. A cabeça vai longe, puxo ela de volta.

Olho pro pulso, pro painel. Olho pra frente. Olho o celular.

Olho pro retrovisor, uma sombra, um contorno.

Você abre a porta. Senta no banco e me olha.

Escancaro um sorriso quando bato no seu. Abraço curto.

Nos meus olhos palavras não ditas.

Você percebe algumas.

Coloco o cinto. Você repete.

Ligo o carro. Ando. Silêncio.

Mãos suadas no volante. O semáforo fecha.

Te olho de canto. Você ri.

Estaciono o carro. Te espero na calçada.

Caminhamos pela rua.

Digo qualquer coisa. Você responde.

Peço para você parar com a mão. Tem carro vindo.

Atravessamos. Entramos no bar.

Mesa para duas.

Você olha o cardápio. Eu chamo o garçom.

Peço vodka e cerveja.

Anestesia. Pergunto algo.  Você disfarça.

Mãos se tocam. Os espasmos voltam.

Olho a lua. Faço uma prece.

O garçom volta. Você diz algo.

Meus dentes derramam da boca.

Outra dose. Outra garrafa.

Revelo um segredo. Você ri.

Ouço tambores. Uma bateria.

Aproximo a cadeira. Gravidade.

Buraco negro.

Beijo tua boca. O tempo para.

7.11.25

Abril

Era início de primavera. Fazia um tempo que não podia usar bermuda na rua. Estava feliz em vesti-la, ainda que fizesse frio.

Quando chegou ao final da caminhada viu aquele imenso mar azul. Um tom de azul difícil de descrever. Um azul de tirar o ar. Era isso.

A cidade era Nice. Um nome com tantos significados.

Tudo se misturava, Nice, o azul do mar, as músicas, os sentimentos.

“Foi assim, como ver o mar...”

“Eu não sei se vem de deus, do céu ficar azul, ou virá dos olhos seus, essa cor que azuleja o dia...”

“O amor é azulzinho...”

O azul era do mar e o mar era ela. Quem dera pudesse morar na água.

27.10.25

De verdade, Maria

Um píer de madeira, no meio daquele mar azul, que se confundia com o céu. Um solzinho tão bom. A calma que aparece em momentos tão únicos na minha vida. Eu sentada, você também, do meu lado.

E de repente você escolheu uma canção aleatória. Mas tinha que ser uma que tinha marcado uma centena de dias meus, só para tornar impossível a estatística sobre coincidências.

“Farinhar bem, derramar a canção...” - Pausa para pegar o instante exato que aquele anjinho do capeta, vestido de cupido, atirou a bendita da flecha

E como se não bastasse o disparate, ainda apareceu uma tartaruga dano um oi para completar a cena cinematográfica e me atormentar por dias sem fim.

30.9.25

Cerco

Primeiro era achar um esconderijo

Para que as feras não estraçalhassem a carcaça colorida

Alguma coisa nela despertava uma agressividade incompreensível

Depois era vagar pelas florestas buscando cores

Olhando com cuidado pra não deixar nada passar

Então buscar uma morada onde coubesse

E procurar alguém para dividi-la

Depois era tarde pra vida

Caminhar para o cinza do fim

18.9.25

Arevamirp

Esse mês que tem um sol estranho, meio morno. Um céu apagado.

Uma porta entreaberta.

Talvez por isso ainda lembre dela a cada setembro.

Esquina

 Milton soprou algo em meu ouvido.

 Um pozinho mágico ali entrou e foi direto ao coração.