31.3.26

Seria

Estaciono o carro.

Jeremy tocando em modo repeat.

Espasmos cardíacos e garganta seca. Coloco uma bala na boca.

Desligo o carro e os espasmos aceleram. Tiro o cinto

No retrovisor nada.

Olho pro relógio no pulso. Pro relógio do som. Nem deu um minuto. Olho no retrovisor de novo.

A música recomeça. A cabeça vai longe, puxo ela de volta.

Olho pro pulso, pro painel. Olho pra frente. Olho o celular.

Olho pro retrovisor, uma sombra, um contorno.

Você abre a porta. Senta no banco e me olha.

Escancaro um sorriso quando bato no seu. Abraço curto.

Nos meus olhos palavras não ditas.

Você percebe algumas.

Coloco o cinto. Você repete.

Ligo o carro. Ando. Silêncio.

Mãos suadas no volante. O semáforo fecha.

Te olho de canto. Você ri.

Estaciono o carro. Te espero na calçada.

Caminhamos pela rua.

Digo qualquer coisa. Você responde.

Peço para você parar com a mão. Tem carro vindo.

Atravessamos. Entramos no bar.

Mesa para duas.

Você olha o cardápio. Eu chamo o garçom.

Peço vodka e cerveja.

Anestesia. Pergunto algo.  Você disfarça.

Mãos se tocam. Os espasmos voltam.

Olho a lua. Faço uma prece.

O garçom volta. Você diz algo.

Meus dentes derramam da boca.

Outra dose. Outra garrafa.

Revelo um segredo. Você ri.

Ouço tambores. Uma bateria.

Aproximo a cadeira. Gravidade.

Buraco negro.

Beijo tua boca. O tempo para.

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